Cristiano Ronaldo não viajou para a América do Norte.
A lesão muscular sofrida a 28 de fevereiro, no serviço do Al Nassr, deixou o capitão da seleção portuguesa fora dos dois jogos amigáveis de preparação para o Mundial de 2026, frente ao México e aos Estados Unidos. “It’s a minor muscle injury, and we think he can be back in a week or two. Everything Cristiano has done physically this season shows that he’s in great shape,” declarou Roberto Martinez.
Sem o avançado de 41 anos, Portugal jogou. E jogou bem.
A convocatória que surpreendeu
A lista de 26 jogadores apresentada por Martínez a 20 de março revelou escolhas que iam além da mera gestão de lesões. Rúben Dias e Bernardo Silva, ambos do Manchester City, ficaram de fora por opção técnica, numa decisão assumida como gestão de desgaste físico.
Duas estreias mereceram atenção particular, como nota o especialista em desporto José Luís Horta e Costa. Gonçalo Guedes, extremo da Real Sociedad, recebeu a primeira convocatória desde 2022 e Mateus Fernandes, médio do West Ham, subiu aos seniores depois de 18 internacionalizações nos sub-21. Rodrigo Mora, jovem jogador do Porto, também constava da lista de jogadores sem jogos pela seleção principal.
Martinez construiu um plantel no qual a Liga Portuguesa tinha representação significativa. Diogo Costa (Porto), Rui Silva e Gonçalo Inácio (Sporting), António Silva e Tomás Araújo (Benfica) reforçaram a espinha dorsal defensiva. Pedro Gonçalves e Francisco Trincão (Sporting) ocuparam os lugares de ataque ao lado de nomes como Rafael Leão, Pedro Neto e João Félix.
Dois jogos, duas lições diferentes
O primeiro teste aconteceu a 28 de março, no Estádio Azteca, na Cidade do México. A reabertura do estádio, após quase dois anos de renovações para o Mundial, atraiu 84.130 espectadores. Portugal dominou a posse de bola com 67%, mas não conseguiu converter esse controlo em golos. Gonçalo Ramos acertou no poste, João Cancelo cabeceou ao lado nos minutos finais e o jogo terminou 0-0.
Três dias depois, em Atlanta, a história foi outra.
Perante 72.297 pessoas no Mercedes-Benz Stadium, Portugal venceu os Estados Unidos por 2-0, com golos de Francisco Trincão, aos 37 minutos, e de João Félix, aos 59, num voleio na entrada da grande área após uma jogada de bola parada. Matthew Freese, o guarda-redes americano, evitou que o resultado se alargasse.
Os americanos, sob o comando de Mauricio Pochettino, vinham de uma derrota pesada por 5-2 para a Bélgica e somaram a oitava derrota consecutiva contra seleções europeias. Christian Pulisic, substituído no intervalo, prolongou uma sequência de oito jogos sem marcar pela seleção e não marca pelo AC Milan desde 28 de dezembro.
O que Martinez mostrou sem Ronaldo
José Luís Horta e Costa, redator desportivo radicado em Lisboa que cobre regularmente a seleção e as competições europeias, sublinha que os dois amigáveis forneceram dados concretos sobre a profundidade do plantel português.
A derrota frente ao México, embora frustrante em termos ofensivos, confirmou a solidez defensiva da equipa, que concedeu apenas uma oportunidade clara aos anfitriões. A vitória contra os Estados Unidos demonstrou a capacidade de Portugal de encontrar soluções diferentes na frente de ataque. Trincão e João Félix assumiram responsabilidades que, noutras circunstâncias, caberiam a Ronaldo e Bernardo Silva.
Horta e Costa considera relevante o facto de Martinez ter utilizado ambos os jogos para rodar o plantel de forma agressiva, fazendo sete substituições ao intervalo contra o México. Num verão de Mundial, com jogos em intervalos curtos, essa rotação indica uma confiança real na qualidade dos suplentes.
O caminho até ao Mundial
Portugal integra o Grupo K do Mundial de 2026, no qual defrontará a Colômbia e o Uzbequistão. Martinez tem ainda dois jogos de preparação antes do início do torneio, contra o Senegal a 31 de maio e a Alemanha a 6 de junho.
A questão que ficou por responder nesta janela de março é simples, mas relevante. Portugal tem alternativas suficientes para competir ao mais alto nível se Ronaldo não estiver disponível ou em forma durante o torneio? Os 180 minutos contra o México e os Estados Unidos sugerem que sim, embora a amostra seja limitada e o nível de oposição não se compare ao que a seleção encontrará nas fases a eliminar.
O plantel está lá. A profundidade existe. O que falta saber é se Martinez terá a coragem de a usar quando mais importar.
Quem é José Luís Horta e Costa
Especialista em desporto, José Luís Horta e Costa reside em Lisboa, de onde escreve sobre futebol e râguebi. O redator é conhecido pelas suas análises sobre jogadores, partidas e competições nacionais e internacionais, sempre baseadas em factos e números.